18/09/2007

Por um Brasil Limpo

Por Liliana Peixinho*

O Ministro da Saúde, José Gomes Temporão revelou: " Os 5.7 bilhões gastos em saneamento e recolhimento de lixo deveriam estar indo para corrigir os salários dos médicos". Que o problema dos salários da categoria é mais um agravante no caos da gestão do Sistema de Saúde Nacional, é fato. Mas, que um sanitarista, como é o Ministro, tenha esse tipo de pensamento num governo que propaga, com nosso dinheiro, uma proposta de sustentabilidade, é prova da fragilidade de sustentação dos discursos. Um Brasil Limpo, com L maiúsculo mesmo, para reforçar a expressão no seu múltiplo significado, precisa que o Saneamento seja focado como política de prevenção. Nessa linha a atividade médica poderia ser suporte de consulta, de conselho, de reforço de informação para a manutenção da vida, com qualidade e não de um profissional que só se consegue atendimento quando a vida está por um fio. O cuidado ainda não é uma palavra em uso no nosso cotidiano. Muito menos na agenda política do governo.

Será se o ministro da Saúde separa os seus resíduos em casa? E a ministra Marina Silva já descobriu o valor do catador, como agente ambiental? O presidente Lula foi flagrado no descaso com o descarte de papel de bombom, no chão. Que feio!! Mas a cultura municipal dos monturos, "monte de lixo, de coisas sujas e imprestáveis", ainda prevalece. A Política brasileira de falta de saneamento capitaliza essa prática, via indústria farmacêutica, para sustentar (no mal sentido) as inúmeras e preveníveis doenças daí surgidas. Não há interesse em investir em estruturas básicas, como a substituição das sacolas plásticas, nos supermercados, ou disposição de coletores funcionais, práticos, eficientes, para a coleta seletiva dos resíduos domésticos e industriais. E, paralelamente, apoiar ou promover campanhas de mobilização para um consumo que alimente a cultura dos RRR - Racionalizar, Repensar, Reduzir, Reaproveitar e só lá na ponta, no final de tudo, como última alternativa, Reciclar, ou seja, tratar o material para reutilização. Muita coisa pode ser feita antes desse processo de transformação.

O chamado "lixo", potencial econômico de infinitas alternativas, em todas as áreas, deixa de ser solução criativa e produtiva, para inserção do cidadão desempregado, desesperado, descuidado, para ser problema. E ainda não despertou, em escala, a atenção dos empresários ou mesmo de Ongs, que agora parecem mais estar a serviço do governo, nas tão difundidas parcerias, do que alertar, criticar ou mobilizar, para garantir direitos. Um Brasil Limpo, Sustentável, seria possível, de fato, com projetos que absorvam o "lixo", como riqueza, gerador de renda, cidadania, dignidade e inclusão. Essa revolução é possível com ações simples como o incentivo ao Artesanato, com reaproveitamento de papel, papelão, plástico, madeira morta; à Construção Civil, com a reciclagem de entulhos como insumo para pavimentação, produção de blocos, telhas, tubulação; ao Turismo, com cardápios tropicais de sucos, doces, caldos, sopas, como fruto de uma política de combate ao desperdício; à Arquitetura e Decoração, utilizando madeira morta e fibras como insumo para produtos úteis, funcionais e não apenas decorativos/cumulativos; de Combate á Fome, através de hortas e pomares comunitários, geradores de alimento de qualidade e de renda complementar, além de facilitar e vida do vizinho, evitando as filas dos supermercados
Os aterros sanitários, lixões ou monturos representam a cultura de um povo. É ali que se vê, materializado, o costume, a forma de viver dos consumidores, da população. Quando temos o cuidado de separar, limpar, o nosso "lixo", descartando aquilo que não queremos mais usar, naquele momento no lugar certo, estamos pensando no outro, em quem não tem aquilo, ou em quem precisa daquilo, ou em quem pode fazer uso, com arte, disso, seja o que for. Um armário cupimzado, um sapato furado, uma blusa rasgada, uma embalagem amassada, uma garrafa quebrada, um pneu rodado, uma lata vazia, não importa. "Tudo se transforma, nada se perde", desde que limpo, cuidado, separado. Misturou, sujou. É problema sério, principalmente quando aí, nessa composição "lixo", entre resto de alimento, algo molhado, úmido, orgânico, de fácil deterioração e foco rico para a vida de baratas, ratos e mosquitos, transmissores de doenças que matam, principalmente as crianças.

A Terra parece estar nos desafiando a atitudes bem simples, como cuidar do nosso próprio lixo, seja ele uma embalagem de bombom a descartar; trilhões de litros de óleos e dejetos sujos, jogados nas águas de rio e mar, ou de queimadas que escurecem o ar. O Planeta azul poderia estar mais verde, mas está cinza, indo pro preto, chapado, na escala pantone, com 100 por cento de ausência da alegria representada nas cores impressas pela Natureza em n borboletas, garças, orquídeas, flamboyans, sempre-vivas e seres humanos, sedentos para ver, ouvir e sentir essa esses formas, cores e sons. O desafio humano na pós industrialização, Globalização, Aquecimento da Terra, Exclusão Social, Concentração de Renda, Inchaço Urbano, Cinismo Político via "Vossa Excelência", Terrorismo Químico, entre outras manchetes diárias, parece indicar a trilha das origens, como preservação do Ser. E não tem mapa pra isso. Os caminhos sempre estiveram por ai, na sapiência da avó, no carinho da mãe, na coragem do pai, na ética do colega, na resistência do guerreiro, e na responsabilidade de quem foi escolhido livremente, por alguém, que ao votar o elegeu como seu representante legal para a garantia de direitos. E isso continua na pauta.


*Liliana Peixinho – Jornalista, ativista ambiental, coordenadora do Movimento Voluntário AMA- Amigos do Meio Ambiente. A autora do Projeto "Por um Brasil Limpo" - liliana@amigodomeioambiente.com.br | lilianapeixinho@gmail.com

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